No dia 13 de outubro, aos 102 anos, partiu Dona Mundinha, uma mulher que fez parte da história do Mucuripe e que, de uma maneira muito particular, também faz parte da minha história. 

A tecnologia ajudou a criar a imagem. O amor, a memória e a inspiração vieram do coração.

Dona Mundinha ficou conhecida nacionamente pela lapinha de Natal que montava em sua casa desde 1947. Uma tradição que atravessou décadas, passou pelos filhos e se tornou uma referência afetiva para tantas pessoas do bairro. Além da lapinha, ela também fazia festa para as crianças da comunidade no Natal, distribuindo presentes e lanche. 

Mas eu não conheci Dona Mundinha apenas por aquilo que hoje às mídias e as pessoas estão contando sobre ela.

Eu fui uma daquelas crianças.

Quando eu tinha entre 7 e 10 anos, eu e meus irmãos íamos, junto com tantas outras crianças do Mucuripe, à casa de Dona Mundinha no Dia das Crianças para receber presentes.

Era uma alegria. Naquela época, a gente não pensava na dimensão daquilo. Éramos apenas crianças esperando o presente, vivendo aquele momento, vendo a movimentação e a felicidade de estar ali.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquelas lembranças ficaram.E ficaram porque existem gestos que a gente não esquece.

Dona Mundinha também é parte da minha família. Ela era mãe do meu cunhado Walter Santos e de Sônia Santos. Hoje, temos nossos sobrinhos, filhos deles, e essa ligação familiar tornou essa história ainda mais próxima de mim.

E existe outra parte dessa história que considero muito especial.

Antes de ser uma referência para mim como professora, minha "tia" Euza ( tia, como toda criança chama professora, in memoriam),  filha de Dona Mundinha, também fez parte da minha infância.

Tia Euza foi minha professora e teve uma influência muito grande na minha formação.Ela me incentivava a ler em voz alta na sala de aula. Eu era um dos seus preferidos e ela gostava de me chamar para ler as histórias. Ela também me incentivou na redação, passava ditados e estimulava muito a leitura e a escrita. Talvez, naquele momento, ninguém pudesse imaginar onde aquilo iria me levar.

Mais tarde, a palavra, a leitura, a interpretação e a comunicação acabaram fazendo parte da minha vida e da minha profissão como ator. Por isso, quando penso na minha tia Euza, penso também em Dona Mundinha.

É como se uma parte daquela história tivesse passado de uma geração para outra e chegado até mim.

Dona Mundinha construiu uma lapinha durante décadas. Mas penso que ela construiu muito mais do que uma lapinha.Ela construiu lembranças, encontros, momentos de alegria para crianças, tradição dentro de sua própria família e principalmente, construiu um legado.

A notícia de sua morte certamente faz muita gente lembrar da lapinha, dos bonecos, das luzes e do Natal que chegava ao Mucuripe. Mas eu prefiro lembrar também daquela senhora que recebia crianças em sua casa e que ajudou a fazer a infância de muita gente um pouco mais feliz. 

Eu fui uma dessas crianças.

E talvez seja justamente isso que torne essa despedida tão especial para mim. Hoje, adulto, olhando para trás, percebo que algumas coisas que vivemos quando crianças ganham outro significado com o passar dos anos. Naquele tempo, eu estava ali apenas para receber um presente. Hoje, entendo que estava recebendo também uma lembrança que carregaria pela vida.

Dona Mundinha partiu, mas deixou muita coisa. Deixou seus filhos, seus netos, seus familiares, seus amigos e uma história que pertence também ao Mucuripe. E deixou uma tradição que, durante quase oito décadas, ajudou a manter vivo o espírito do Natal naquela comunidade. 

Aos filhos e filhas de Dona Mundinha, especialmente aos meus queridos Walter e Sônia e meus sobrinhos, deixo meu abraço e meu fraterno carinho.

Que Deus conforte o coração de toda a família. 

E que vocês possam olhar para tudo o que ela construiu e sentir orgulho da mãe que tiveram.

Que dona Mundinha descanse em paz.

Eu tive a felicidade de ser uma daquelas crianças que um dia entrou na casa dela para receber um presente.

Hoje, tantos anos depois, percebo que o maior presente foi a lembrança que ficou.

E essa ninguém consegue tirar da gente. 


Da Redação

Portal Cristão News

Paulo César Cândido
Teólogo, pastor.